06 maio 2013

cento e quatro

Viveu tudo ao contrário. Primeiro os filhos, o casamento, a vida adulta, e só depois, muitos anos depois, os sonhos. Não por uma questão de escolha, mas porque a vida assim lhe foi acontecendo. Muito cedo aprendeu o significado de sacrifício e o que custa abdicar dos planos e dos anos que imaginara diferentes. Muito cedo aprendeu também que existe um amor superior a todas essas coisas. E ao longo desses anos em que esperou pacientemente pela sua vez, teve ao seu lado dois sorrisos que lhe amparavam todos os passos. Podia ter-se tornado uma pessoa conformada com a sua sorte. Mas como os sonhos só morrem no fim de tudo, agarrou-se à força dos seus dois sorrisos para finalmente voar do ninho até outro verão. E percebeu que a vida pode começar de novo sempre que se quiser. Enquanto houver força e uma vontade que queima. Enquanto houver inquietação e desejo de mais. Enquanto não houver resignação. E os seus dois sorrisos permanecerão ao seu lado.



inspiração: (dia da) mãe

05052013

30 abril 2013

cento e três

A minha memória daquela terra vem sempre acompanhada do calor sufocante do verão e do cheiro a figos, e por isso foi com estranheza que passeei sob um céu nublado, apertando o casaco contra o vento frio. Estranhei também ver que a rua tem nome e até placa - "Rua da Adega" - quando sempre a conheci como "a rua de nossa casa, a que vai até à estrada principal, de alcatrão". Essa rua já foi para mim muito longa e larga, e o que mais gostava nela eram as silvas que a ladeavam e de onde eu roubava mãos-cheias de amoras ao final da tarde, quando o sol já não era tão forte.
A meio da rua fica a casa da Rosário, cada vez mais velha e pequenina, mas sempre miúda. Fazem-lhe muita falta as cabras que já vendeu, e a mim fazem-me falta os queijos que deixou de fazer. Tem sempre por companhia um Carriço obediente (nunca teve um cão com outro nome), que a segue para todo o lado. Penso sempre se será esta a última vez que a vejo, e desejo sempre que não seja. O riso e o brilho dos olhos da Rosário fazem tanto parte daquele lugar como as casas, as oliveiras e as minhas recordações.
Entro em casa e vejo que, surpreendentemente, aguentou bem as chuvas deste inverno rigoroso. Tirando as teias de aranha e o leve cheiro a ratos mortos na loja, está quase exatamente como estava da última vez que lá fui (há quanto tempo terá sido?). Lá fora já não há caminho para a eira, só feno e ervas que crescem indiscriminadamente por ali. A avó diz que não é problema, que se arrancam facilmente. O tanque já não servirá para grande coisa, e a horta já desapareceu há muito. Mas o cheiro das flores é incrivelmente intenso e quase compensa a paisagem.
Quando lá voltar vai estar calor, e vou querer comer figos e maçarocas de milho assadas na fogueira. Vou querer refazer o trilho para a eira onde aprendi a jogar à Bisca, e deitar-me em cima do poço à noite para ver as estrelas. E de regresso, como hoje, hei-de ir visitar as pessoas mais queridas da minha memória, sentar-me junto delas e admirar as flores de plástico, dar-lhes um beijo e saudades, e deixar com elas esse passado até à próxima vez.



inspiração: Val da Couda

29042013

28 abril 2013

cento e dois

Andava sempre sem se preocupar com o seu destino. Deixava que outros pés a guiassem, enquanto olhava para o chão. Brincava com os desenhos da calçada: pisar só as pedras brancas, depois só as pretas, depois um pé sempre nas brancas e o outro sempre nas pretas. De vez em quando, num padrão mais complicado, demorava-se um ou dois segundos  e logo sentia uma mão a puxá-la. Olhava para cima por instantes e seguia o jogo. Quando se cansava, olhava em volta. Via pernas e joelhos e, volta e meia, cruzava-se com outro par de olhos bem abertos. E sorria.
A caminho de casa, passava sempre junto a um longo muro cinzento. Por vezes encostava a mão à pedra para sentir a sua textura, mas era sempre repreendida. Numa típica manhã de primavera, daquelas em que o ar ainda fresco e o sol já forte cobrem o corpo com uma ligeira pele de galinha, ela parou subitamente em frente ao muro. A outra mão puxava-a pelo braço mas ela estava ancorada. Os olhos estupefactos e o sorriso a alargar-se até quase lhe ocupar todo o rosto. À sua frente, rompendo a seriedade daquele imenso bloco de pedra, uma pequena flor de pétalas brancas e amarelas sorria-lhe de volta. Com mais um puxão do braço foi obrigada a continuar a sua marcha, mas levou consigo o sorriso que aquela flor lhe deu.
Quando cresceu, especializou-se em botânica.



inspiração: pensar positivo

27042013

27 abril 2013

cento e um

os pés enterram-se na areia molhada. a água vai subindo até aos joelhos. até não se sentirem os ossos. gela. dói. até não se sentir mais nada. o vento assobia e confunde-se com o som das ondas. os olhos ao fundo. os pés gelados. o mar nos ossos. uma anestesia para todas as outras coisas.



inspiração: praia

26042013

26 abril 2013

cem

no primeiro dia senti-me livre. no segundo dia percebi que não ia ser tão fácil. no terceiro dia vi-me totalmente presa. e com o passar do tempo percebi que a liberdade da minha escolha era afinal uma faca de dois gumes. afinal, a liberdade que eu decidira ter e dar-te era também o que me aprisionava a esta condição de andar por aí de olhos tristes.



inspiração: a liberdade

25042013

24 abril 2013

noventa e nove

os dias já são quentes, mas cá dentro continua frio. e percebes que ainda vais ter muitos dias tristes antes de poderes voltar a ser feliz.



inspiração: a casa fria (e o coração também)

24042013

22 abril 2013

noventa e oito

o sal dos seus olhos mistura-se com o do mar
e num instante toda ela é água
dilui-se na doçura das ondas
e depois disso
a paz



inspiração: noventa e seis, dor, alívio

22042013