18 abril 2013

noventa e dois

Ela saiu e subiu a rua sozinha. Atravessou a estrada por entre os carros sem se preocupar. Sente-se sempre protegida, de alguma maneira, na sua cidade. Sentou-se na paragem. Faltavam 8 minutos para o próximo autocarro e meia hora para o último. Afinal podia ter ficado mais tempo, mas agora pouca diferença fazia. Faltavam 4 minutos e ela nem deu conta do tempo passar. Faltavam 2 minutos quando apareceu um louco desgrenhado a falar sozinho ou com as caixas de cartão que trazia. Ela mal se apercebeu. Quando o autocarro chegou e abriu as portas foi a primeira a entrar. Os homens cederam-lhe passagem ainda que tivesse sido a última a chegar à paragem. Sentou-se num banco à janela, olhou para fora sem ver, e assim seguiu viagem.
Ao chegar a casa, sozinha, abriu a janela para o gato que apareceu a correr, miou por festas e foi deitar-se na cama. Ela deitou-se também e pensou: "ser uma mulher toda armada em forte e independente às vezes é uma merda!".



inspiração: a vida

17042013

10 abril 2013

noventa e um

- Wanna go out for dinner?
- Não percebi.
- What?
- Não te entendo!
- I don't speak portuguese!
- Eu não sei falar inglês!!
- Damn!
- (suspiro) Precisamos de um tradutor.
- What?



inspiração: desafio de escrita de microficção, com o tema "O casal sem tema de conversa"

10042013

09 abril 2013

noventa


- ‘Tou?
- Olá.
- Então?
- ‘Tás bem?
- Sim, e tu?
- Também.
- Ok.
- Então?
- Hmm?
- Que contas?
- Nada de especial.
- Ok.
- E tu?
- Nada de mais.
- Pois.
- Pois.
- Falamos mais logo?
- Sim. Até logo.



inspiração: desafio de escrita de microficção, com o tema "O casal sem tema de conversa"

08042013
(pelo dia 28032013)

oitenta e nove

Trocam sms a caminho do trabalho e ao chegar, nas pausas do cigarro, durante o almoço, depois do café, na pausa do lanche, no trânsito. À hora de jantar nunca têm nada para dizer.



inspiração: desafio de escrita de microficção, com o tema "O casal sem tema de conversa"

08042013

04 abril 2013

oitenta e oito


Da janela via-se o jardim com as suas árvores em flor, a relva muito verde e sempre bem tratada, as pequenas mesas com um tampo quadriculado onde se joga às damas e ao xadrez, os bancos corridos de madeira junto ao caminho de pedras e dois pequenos lagos com patos. Nos dias de maior calor dava a sensação de aquele ser um verdadeiro refúgio refrescante de natureza em pleno coração da cidade. E era nos dias de sol que mais claramente transparecia a felicidade estampada nos sorrisos de quem lá passeava. Todos os dias era possível encontrar os casais com os seus filhos, os velhotes nas pequenas mesas das damas e do xadrez, os adolescentes que fumavam às escondidas por trás do WC, os turistas de máquina fotográfica ao pescoço, e alguém a percorrer o jardim a toda a volta, em passo de corrida mais ou menos acelerado, parando de vez em quando para beber água no chafariz. Ao final da tarde era comum aparecerem os namorados, que se sentavam nos bancos corridos de madeira abraçados ou a olhar um para o outro, antecipando a chegada da noite com beijos, segredos e declarações de amor mais ou menos inocentes. Um a um, todos estes habitantes do jardim o abandonavam, já noite cerrada, até amanhã, até para a semana. No dia seguinte tudo se repetia.
Sim, da janela via-se o jardim e toda a sua vida. Mas isso era do lado de lá do portão.



inspiração: oitenta e sete

03042013
(pelo dia 27032013)

oitenta e sete

Da janela via-se o jardim com árvores em flor e um lago com patos. Os dias de sol faziam transparecer a felicidade nos sorrisos de quem lá passeava. Mas isso era do lado de lá do portão.



inspiração: desafio de escrita de microficção, com o tema "condomínio fechado"

03042013

oitenta e seis

Naquela noite rodeou-se da família. Viu chegar os filhos, os netos e os bisnetos e recebeu-os a todos com um brilho nos olhos e um amor que outros talvez não notassem.
Naquela noite houve uma mesa cheia de doces, um grande bolo e champanhe. Mas também vinho tinto, pão e queijos. Não poderia ser de outra maneira.
Naquela noite celebrou-se a vida a que se devem todas aquelas outras vidas. De copo na mão, de sorriso aberto e com riso fácil, e de coração muito cheio.



inspiração: avô António

03042013
(pelo dia 25032013)