A casa enche-se de sombras. Está escuro, as janelas e as varandas fechadas não deixam ver que já é primavera lá fora. Ao longe há o canto dos pássaros, mas ali dentro só se consegue ouvir o eco dos passos pelas divisões vazias. Cheira a mofo e tudo é frio: o chão de tijoleira, as paredes brancas e de azulejo, o ar que quase não se respira. Ao deixar-se cair pesadamente no sofá eleva-se uma fina nuvem de pó, que se vê graças a um fiozinho de luz que entra por uma fresta nas portadas. Indiferente a essa réstia de luz, fecha os olhos e adormece profundamente. Rompendo o silêncio ouve-se agora a sua leve respiração. Como um fiozinho de luz numa casa feita de sombras.
Daqui a uns anos, quando olhares para trás, talvez vejas tudo com uma certa leveza. Mas agora, neste exato momento que vives, sabe que todas as coisas importantes devem ser vividas intensamente. Por isso é bom que te apaixones loucamente, que ames desmesuradamente, que sintas o fim do mundo em cada desgosto e que tenhas o coração sempre à flor da pele. Porque entretanto vais aprender e vais perder essa inocência de saber que a vida acontece exatamente agora.
Ela entra na carruagem quase vazia e, sem pensar, senta-se num banco à janela. Em cada estação entra mais e mais gente, mas para ela é igual. Sente-se sozinha e nenhuma destas pessoas lhe faz diferença. Olha pela janela para a escuridão do túnel e acompanha com os olhos as linhas verdes e laranja que se fixam na parede. De entre uma nuvem de gargalhadas e conversas em francês e brasileiro, ela só ouve a voz da mulher, que se sobrepõe: "Próxima estação: São Sebastião. Há correspondência com a linha vermelha.". Ouvem-se mais vozes, português, inglês, um telefone toca, "Próxima estação: Parque.". Nada disto lhe interessa. Os olhos do outro lado da janela. A escuridão do túnel. As linhas verdes e laranja. "Próxima estação: Marquês de Pombal. Há correspondência com a linha amarela. Atenção à distância entre o comboio e a plataforma." E sai.