08 março 2013

sessenta e seis

Ela entra na carruagem quase vazia e, sem pensar, senta-se num banco à janela. Em cada estação entra mais e mais gente, mas para ela é igual. Sente-se sozinha e nenhuma destas pessoas lhe faz diferença. Olha pela janela para a escuridão do túnel e acompanha com os olhos as linhas verdes e laranja que se fixam na parede. De entre uma nuvem de gargalhadas e conversas em francês e brasileiro, ela só ouve a voz da mulher, que se sobrepõe: "Próxima estação: São Sebastião. Há correspondência com a linha vermelha.". Ouvem-se mais vozes, português, inglês, um telefone toca, "Próxima estação: Parque.". Nada disto lhe interessa. Os olhos do outro lado da janela. A escuridão do túnel. As linhas verdes e laranja. "Próxima estação: Marquês de Pombal. Há correspondência com a linha amarela. Atenção à distância entre o comboio e a plataforma." E sai.



inspiração: a caminho de casa

07032013

07 março 2013

sessenta e cinco

Vale a pena. Vale a pena? Não, não vale a pena. Mas espera. Pensa duas vezes. Pensa mais um bocado. E agora dorme. Amanhã talvez valha a pena.



inspiração: o meu cérebro bipolar

06032013

05 março 2013

sessenta e quatro

a casa está pronta
a roupa está pendurada
e os sapatos polidos.
os planetas estão alinhados
e a vida está à espera.
mas ela adormeceu no sofá.



inspiração: sono

05032013

sessenta e três

Encontrámo-nos finalmente. Sorrimos e abraçámo-nos como se não nos víssemos há muito tempo. Não nos víamos há tanto tempo... Olhámos para aquela nossa casa e estava tudo tão diferente quanto estava exatamente igual. Lá dentro teremos sempre as mesmas sensações e a alegria de sabermos que um dia aquilo foi também nosso.
Palminhámos as mesmas ruas, entrámos nos mesmos bares, fomos dar inevitavelmente ao último poiso daqueles dias. E encontrámos a mesma música, o mesmo cheiro, os mesmos gestos. E fomos divertidos, parvos, sérios e felizes, tal como naqueles dias. Mas desta vez fomos também nostálgicos.
Vimos o dia amanhecer, como há anos atrás. Atravessámos a ponte e fomos levados para um tempo tão longínquo quanto recente. Despedimo-nos, um de cada vez, com a promessa de nos vermos em breve e a certeza de que isso vai mesmo acontecer. Olhámo-nos e quisémos guardar essa imagem nítida que não vem das fotografias, mas da pessoa verdadeira que estava à nossa frente.
Passou tanto tempo e tudo mudou entretanto, mas nada mudou realmente.



inspiração: reencontro

05032013

04 março 2013

sessenta e dois

tudo me pesa:
os olhos
o corpo
o tempo
a história
e a vida



inspiração: cansaço

03032013

parêntesis

“ The idea is the whole thing. If you stay true to the idea, it tells you everything you need to know, really. You just keep working to make it look like that idea looked, feel like it felt, sound like it sounded, and be the way it was. And it's weird, because when you veer off, you sort of know it. You know when you're doing something that is not correct because it feels incorrect. It says, "No, no; this isn't like the idea said it was." And when you're getting into it the correct way, it feels correct. It's an intuition: You feel-think your way through it. You start one place, and as you go, it gets more and more finely tuned. But all along it's the idea talking. At some point, it feels correct to you. And you hope that it feels somewhat correct to others. „


CATCHING THE BIG FISH
meditation, consciousness, and creativity

David Lynch

02 março 2013

sessenta e um

quantas viagens por quantos mundos imaginários?
quantas galáxias percorridas?
quantas paisagens áridas e quantas verdejantes?
quantos sons inventados, grotescos e celestiais?
quantos vozes levadas ao cume da sua bela imperfeição?
quantos sonhos desvendados?
quantos arrepios na pele?



inspiração: este vídeo (obrigada, Sara):



02032013

01 março 2013

sessenta

Ouço o som intermitente enquanto espero. Não me consigo mexer embora todo o meu corpo trema, e sinto o coração à flor da pele. Pergunto-me que frases irão sair da minha boca. O raciocínio que tenho pronto para despejar torna-se difuso, são pequenas nuvens cinzentas que se vão dissipando à medida que os segundos passam, acompanhados por esse som intermitente. Neste momento já duvido que vá ter um discurso coerente, e nem sei até que ponto vou conseguir alinhar as palavras de maneira a que façam algum sentido. Ouço o som intermitente enquanto espero. E alimento uma cobarde esperança de que ele não atenda.



inspiração: um desafio de escrita de microficção, com o tema "chamada perdida"

01032013

cinquenta e nove

Fecha os olhos. Respira fundo. Sente a turbulência. Repara no silêncio.
Respira fundo se sentes o coração bater ainda forte. Esquece. Mergulha mais fundo.
Abre os olhos para dentro. Respira para dentro. Ouve-te. Respira-te. Absorve-te.



inspiração: Catching the big fish, David Lynch

28022013

28 fevereiro 2013

cinquenta e oito

Andam todos na mesma direção, mesmo quando vão em sentidos opostos. Têm todos a mesma postura, a mesma expressão, os olhos postos no mesmo chão. Se acreditassem que a vida não tem contrário, talvez levantassem a cabeça e olhassem para a forma das nuvens ou para as varandas ornamentadas. Talvez sorrissem para a pessoa que se senta na mesa ao lado no café. Talvez suportassem a birra da criança em hora de ponta. Talvez andassem mais atentos. Talvez vivessem mais felizes. Talvez vivessem mais.



inspiração: o largo do Rato e este excerto:

É curioso que as pessoas usem a expressão "vida e morte".
A morte não é contrário da vida, mas sim do nascimento.
A vida não tem contrário.
(Sete palmos de terra)

28022013

26 fevereiro 2013

cinquenta e sete

o amor fica para sempre
seja de que maneira for
na dor que deixa
quando nos deixa para trás
fica num cantinho do coração
ou do quarto
ou da sala
fica no fundo dos baús
e no fundo da memória
fica na história que fica impressa na pele
e por baixo da pele
no sangue



inspiração esta história

26022013

cinquenta e seis

ela sonha
vendo o mundo através do vidro da janela
ela conhece tão bem aquela paisagem
e imagina um dia poder conhecer o que há
para lá do seu horizonte

ele sonha
com rios e florestas e estradas
com as infinitas possibilidades
e imagina um dia poder perder-se no que há
para lá do seu horizonte

ela vive
de olhos presos no chão
e sorriso pronto a despontar

ele vive
com pés assentes na terra
mas a cabeça sempre no ar



inspiração: pedaços de textos antigos

21022013
(a compensar o 10022013 em falta)




cinquenta e cinco

leva-me para longe
num aviãozinho de papel
pelas nuvens que parecem de algodão

leva-me para longe
num barquinho de papel
pelas ondas de mares transparentes



inpiração: Paperman

25022013

25 fevereiro 2013

cinquenta e quatro

Ouço a vida e os carros a passar lá fora. Cá dentro, só a respiração tranquila de quem já dorme e o silêncio pesado dentro da minha própria cabeça. E o escuro.
Espero. Já quase adormeço também. Espero mais um pouco. Adormeço.



inspiração: o que acontece enquanto não durmo

24022013

23 fevereiro 2013

cinquenta e três

esforço-me por me encher de paisagens. mas os olhos esbarram em paredes vazias.



inspiração: sem inspiração

23022013

cinquenta e dois

sozinha flutuo entre cá e lá
ou entre o que é real e o que já é sonho
no limite de um estado consciente
ou na noção de não haver esse limite



inspiração: sono

22022013

22 fevereiro 2013

cinquenta e um

tenho um amor
da cor do mel e olhos claros
que só me ama quando lhe apetece

passa o dia na rua
chega de madrugada
dorme no sofá

mas nos dias de chuva
gosta de se deitar no meu colo
e de ficar a olhar para mim
deita-se na minha cama quando vou dormir
e aquece-me até amanhecer



inspiração: Mel, o gato

21022013

20 fevereiro 2013

cinquenta

chegámos ao paraíso
por um caminho de terra batida
depois de uma estrada que parecia não ter fim

o paraíso é o fim do mundo
rodeado de árvores e de silêncio
com um rio ao fundo e uma casa logo ali

o paraíso não tem horas
espreguiça-se pelos corpos deitados
esconde-se nos olhos fechados
de quem está a sonhar

o paraíso foi nosso
num sonho que vivemos acordados
inocentes e apaixonados
até ser hora de voltar

o paraíso existe
preso nos dias do verão passado
perdido nas memórias que guardo de ti

e quando voltarmos
será por um caminho de terra batida
depois de uma estrada que parece não ter fim



inspiração: um início de texto inspirado em Minas de S. Domingos

20022013

19 fevereiro 2013

quarenta e nove

sabe bem o sol
ter de semicerrar os olhos
despir o casaco
beber um chá gelado

sabe bem o sol
e o rio a um palmo
a cidade aos meus pés
o riso despreocupado

sabe bem uma tarde de calor no inverno



inspiração: uma tarde de calor

19022013

quarenta e oito

tive um sonho
em que aparecias tal como me lembro de ti
mais bonita ainda
iluminada
estavas feliz
via-se pelo brilho nos teus olhos
estavas tão feliz
e tudo estava bem
como há anos atrás



inspiração: um sonho

18022013