18 fevereiro 2013

quarenta e sete

durante aquele tempo fomos só nós. o mundo éramos nós. e esse tempo era para sempre. acreditámos que éramos tudo o que havia. que éramos infinitos. o início e o fim estavam em nós. a natureza estava em nós, as marés, as fases da lua, as constelações, as estações do ano, os anos, as horas, todos os milésimos de segundo. naquele tempo víamo-nos completos e perfeitos um no outro. naquele tempo não sabíamos que o nosso fim ia chegar antes do fim de cada um de nós.



inspiração: Blue Valentine

17022013

16 fevereiro 2013

quarenta e seis

enche-me os olhos
de coisas bonitas
jardins cheios de flores
praias desertas
balões, algodão doce e carrosséis

leva-me até ao verão
às peles morenas
e aos cabelos salgados

mostra-me
como as manhãs são suaves
as tardes preguiçosas
e as noites imprevisíveis

adormece-me
numa rede presa nas árvores
a minha cabeça no teu ombro
o teu calor na minha pele

sonha-me
em branco e dourado
em bela e efémera
em imperfeita e feliz



inspiração: 63 imagens de inspiração

16022013

quarenta e cinco

calmas manhãs
vendo a chuva cair
lá fora

calmas manhãs
vendo a luz entrar
pela janela

calmas manhãs
vendo o sol rasgar
as nuvens



inspiração: esta imagem (daqui):



15022013

15 fevereiro 2013

quarenta e quatro

de vestido branco e laço no cabelo, saí
fingi que era primavera e fui à procura de flores por aí
encontrei-te sentado num banco do jardim
e sentei-me ao teu lado à espera que olhasses para mim

lias um livro com um ar muito concentrado
e eu percebi que ia ficar ali um bom bocado
peguei neste caderno e no lápis para me entreter
sabia que pelo cantinho do olho já me estavas a ver

vejo-te passar todos os dias pela minha rua
e ambos sabemos que tu serás meu como eu serei tua
mas por agora fiquemos só sentados neste banco de jardim
à espera do início de uma história da qual já sabemos o fim



inspiração: Tiê

14022013

14 fevereiro 2013

quarenta e três


Ela enrola-se sobre si mesma, não sabe se por causa do frio se do hábito, e fecha os olhos. O corpo aquece à medida que a respiração se torna mais espaçada. a cabeça pesa na almofada por onde se espalham os cabelos. Pouco a pouco, o corpo afunda-se no colchão. Um a um, os pensamentos viajam em direção a outro universo. O silêncio é quase absoluto, não fosse o ar que calmamente é sugado e depois devolvido ao seu lugar. Dentro dela, o silêncio é uma canção de embalar que lhe leva a consciência para mais fundo. Até ao sítio onde nascem e vivem e morrem os sonhos.
Ela enrola-se sobre si mesma e adormece.



inspiração: After Dark, Haruki Murakami

13022013

13 fevereiro 2013

quarenta e dois

para lhe dizer
tudo o que é preciso
sussurrado ao ouvido
ou de olhos postos nos seus
teria de criar uma capa
pôr uma máscara
inventar outra voz
e talvez tivesse
de lhe voltar as costas
para não o ver
para que não me olhasse
tão diretamente

talvez fosse mais fácil
escrever num papel
e ler
ou enviar por correio



inspiração: insónia e coisas por dizer

12022013

12 fevereiro 2013

quarenta e um

escrevo-me de dentro para fora. com ideias confusas. frases soltas. escrevo-me sem sentido aparente.
no espelho sou transparente e contraditória. e sempre mais do que uma pessoa. com ideias soltas. vozes confusas. no espelho não há sentido nenhum.
ao vivo sou só fachada. nunca transparente. sempre contraditória. uma parede falsa que esconde tempestades e maremotos. ao vivo há um sentido muito falso de haver algum sentido.



inspiração: Mi pinto a mi misma porque estoy con frecuencia sola e porque soy la persona a cual mejor conozco. (Frida Kahlo)


11022013

quarenta

se me pedires para ir até ao fim do mundo
eu vou
se me pedires que espere aqui
eu espero
e se me pedires que diga sim
eu digo
mesmo que eu saiba que devo dizer não
mesmo que eu saiba que devo ir
mesmo que eu saiba que devo ficar

e penso
quantas vezes já fui ao fim do mundo e voltei
e não sei se aprendi alguma coisa
e vejo
que depois de tanto que já andei
e depois de tantas voltas que já dei
estou de volta ao mesmo lugar
venho sempre parar ao mesmo lugar



inspiração: comportamento de risco recorrente

11022013

09 fevereiro 2013

trinta e nove

Há já muito tempo que as fotografias não são resgatadas de uma ausência poeirenta. A memória tenta construir um rosto através de pedaços das expressões inertes e dos sorrisos impressos no brilho desses papéis. Mas os detalhes, os pormenores das feições, dos sinais, das rugas, esses são como o fumo que se dissolve lentamente até desaparecer. A realidade de todos os dias tem ainda uma voz que se ouve ao longe, distante e casual, como se isso fosse alguma vez possível. Em dias raros, a ausência dá lugar a um coração quente e cheio. A realidade desses dias reveste-se de uma luz efémera que por momentos lhe devolve o alento. Mas a realidade dela é estar sozinha.



inspiração: insónia e um texto antigo

08022013

trinta e oito

a noite vai passando lentamente, com os seus mistérios e os seus cantos escuros, com a sua vida acontecendo lá fora. a manhã irá chegar entretanto, com o primeiro canto dos pássaros e o orvalho pousado nas folhas. e talvez com o meu corpo inquieto e acordado.



inspiração: sem sono

08022013

trinta e sete

e de repente, pés descalços à beira do precipício, olhas para o lado e vês uma pequena estrada, estreita, de terra batida e pedras. tens coragem de a atravessar?



inspiração: as palavras dos outros

06022013

06 fevereiro 2013

trinta e seis

o fim tão perto
aos pés da cama
no fundo do corredor
do lado de lá da porta.
e o melhor caminho será sempre o dos olhos nos olhos
o das mãos dadas
o dos sorrisos que despontam sozinhos
o das lágrimas que não conseguimos evitar.



inspiração: Now is good

05022013

04 fevereiro 2013

trinta e cinco

10 minutos: uma folha em branco, as mãos paradas, os olhos vazios.
7 minutos: o relógio marca as horas e só ele se apercebe de que o tempo não espera por ninguém.
5 minutos: ainda nada. os olhos ainda vazios, as mãos ainda paradas.
4 minutos:
3 minutos: desiste.



inspiração: sem inspiração

04022013

03 fevereiro 2013

trinta e quatro

Sinto o vento bater-me na cara enquanto desço a estrada de pedra. Olho em volta. Sou o único passo apressado.

Sinto o frio invadir-me as mãos enquanto desço a calçada. Passo por prédios de onde saem reis sedentos de mundo e vultos de homens enormes que comem estrelas. Sou o único passo atento.

Sinto a noite cair nos meus olhos enquanto subo a estrada de alcatrão. Passo por uma janela de onde sai o som de um piano. Paro por momentos e sigo. Sou o único passo hesitante.

Vejo o céu ainda amarelo e laranja ao fundo da rua. Chego a casa. Sou o único passo. E paro.



inspiração: domingo em Lisboa

03022013

trinta e três

sorri quando a vi. ou melhor, olhei para ela e ri-me por ela se estar a rir de eu me estar a rir. reconheci-lhe esse riso e reconheci em mim as saudades dela. sabe-me sempre bem sentir que não passou tempo nenhum e que ela nunca esteve fora da minha vida. e no entanto querer saber tudo, que ela me conte todas as histórias que lhe aconteceram e que me fale de todas as pessoas que conheceu. mas gosto que ela pergunte "e tu?" e que eu simplesmente responda "estou bem!". e que tudo volte a ser como era antes de ela se ter ido embora.



inspiração: Carol

02022013

02 fevereiro 2013

trinta e dois

branco
à minha frente tudo branco
opaco, vácuo, vazio
e luz
luz que fere os olhos
arde por dentro
arde nos olhos
fere por dentro



inspiração: sem inspiração

01022013

01 fevereiro 2013

trinta e um

chegaste ao primeiro fim. quanto custou? quantas vezes não acreditaste? quiseste desistir logo no primeiro dia e no segundo e no terceiro. todos os dias quiseste um bocadinho desistir. todos os dias te obrigaste a dar mais um passo.
segue em frente e vai olhando para trás. nunca sabes de onde pode vir uma inspiração.



inspiração: o primeiro mês!

31012013

trinta

Ela chega a casa, liga o aquecedor e deixa o frio lá fora. Põe um disco a tocar e vai até à cozinha. As luzes de natal na janela convidam a coisas quentes e doces. A bancada limpa e as tigelas coloridas convidam a sujar as mãos de manteiga e açúcar. Ao chocolate derretido junta-se o licor e as bolachas. Ela gosta do som da casca de ovo a partir-se e do barulho que faz o papel de alumínio.
Ela abre o frigorífico, tira o salame e corta uma fatia. Põe um saquinho de chá e um pau de canela na água quase fervida. No sofá, esperam-na uma manta polar e o livro já no fim. É noite e está frio lá fora.



inspiração: salame de chocolate

31012013

31 janeiro 2013

vinte e nove

foi o riso
é sempre o riso
vai sempre ser preciso que me faças rir desta maneira

foram os dedos
naquele dia os teus dedos
que se fizeram enredo com os meus desta maneira

foi de repente
tudo foi de repente
e é ponto assente que não podia ser de outra maneira



inspiração: vinte e oito

30012013

vinte e oito

foi o riso
sempre o riso
foi por ser tão fácil
foi por ser tão de repente
tão confortável



inspiração: Carta de Paris, Fausto

Carta De Paris by Fausto on Grooveshark

30012013