15 fevereiro 2013

quarenta e quatro

de vestido branco e laço no cabelo, saí
fingi que era primavera e fui à procura de flores por aí
encontrei-te sentado num banco do jardim
e sentei-me ao teu lado à espera que olhasses para mim

lias um livro com um ar muito concentrado
e eu percebi que ia ficar ali um bom bocado
peguei neste caderno e no lápis para me entreter
sabia que pelo cantinho do olho já me estavas a ver

vejo-te passar todos os dias pela minha rua
e ambos sabemos que tu serás meu como eu serei tua
mas por agora fiquemos só sentados neste banco de jardim
à espera do início de uma história da qual já sabemos o fim



inspiração: Tiê

14022013

14 fevereiro 2013

quarenta e três


Ela enrola-se sobre si mesma, não sabe se por causa do frio se do hábito, e fecha os olhos. O corpo aquece à medida que a respiração se torna mais espaçada. a cabeça pesa na almofada por onde se espalham os cabelos. Pouco a pouco, o corpo afunda-se no colchão. Um a um, os pensamentos viajam em direção a outro universo. O silêncio é quase absoluto, não fosse o ar que calmamente é sugado e depois devolvido ao seu lugar. Dentro dela, o silêncio é uma canção de embalar que lhe leva a consciência para mais fundo. Até ao sítio onde nascem e vivem e morrem os sonhos.
Ela enrola-se sobre si mesma e adormece.



inspiração: After Dark, Haruki Murakami

13022013

13 fevereiro 2013

quarenta e dois

para lhe dizer
tudo o que é preciso
sussurrado ao ouvido
ou de olhos postos nos seus
teria de criar uma capa
pôr uma máscara
inventar outra voz
e talvez tivesse
de lhe voltar as costas
para não o ver
para que não me olhasse
tão diretamente

talvez fosse mais fácil
escrever num papel
e ler
ou enviar por correio



inspiração: insónia e coisas por dizer

12022013

12 fevereiro 2013

quarenta e um

escrevo-me de dentro para fora. com ideias confusas. frases soltas. escrevo-me sem sentido aparente.
no espelho sou transparente e contraditória. e sempre mais do que uma pessoa. com ideias soltas. vozes confusas. no espelho não há sentido nenhum.
ao vivo sou só fachada. nunca transparente. sempre contraditória. uma parede falsa que esconde tempestades e maremotos. ao vivo há um sentido muito falso de haver algum sentido.



inspiração: Mi pinto a mi misma porque estoy con frecuencia sola e porque soy la persona a cual mejor conozco. (Frida Kahlo)


11022013

quarenta

se me pedires para ir até ao fim do mundo
eu vou
se me pedires que espere aqui
eu espero
e se me pedires que diga sim
eu digo
mesmo que eu saiba que devo dizer não
mesmo que eu saiba que devo ir
mesmo que eu saiba que devo ficar

e penso
quantas vezes já fui ao fim do mundo e voltei
e não sei se aprendi alguma coisa
e vejo
que depois de tanto que já andei
e depois de tantas voltas que já dei
estou de volta ao mesmo lugar
venho sempre parar ao mesmo lugar



inspiração: comportamento de risco recorrente

11022013

09 fevereiro 2013

trinta e nove

Há já muito tempo que as fotografias não são resgatadas de uma ausência poeirenta. A memória tenta construir um rosto através de pedaços das expressões inertes e dos sorrisos impressos no brilho desses papéis. Mas os detalhes, os pormenores das feições, dos sinais, das rugas, esses são como o fumo que se dissolve lentamente até desaparecer. A realidade de todos os dias tem ainda uma voz que se ouve ao longe, distante e casual, como se isso fosse alguma vez possível. Em dias raros, a ausência dá lugar a um coração quente e cheio. A realidade desses dias reveste-se de uma luz efémera que por momentos lhe devolve o alento. Mas a realidade dela é estar sozinha.



inspiração: insónia e um texto antigo

08022013

trinta e oito

a noite vai passando lentamente, com os seus mistérios e os seus cantos escuros, com a sua vida acontecendo lá fora. a manhã irá chegar entretanto, com o primeiro canto dos pássaros e o orvalho pousado nas folhas. e talvez com o meu corpo inquieto e acordado.



inspiração: sem sono

08022013