12 fevereiro 2013

quarenta

se me pedires para ir até ao fim do mundo
eu vou
se me pedires que espere aqui
eu espero
e se me pedires que diga sim
eu digo
mesmo que eu saiba que devo dizer não
mesmo que eu saiba que devo ir
mesmo que eu saiba que devo ficar

e penso
quantas vezes já fui ao fim do mundo e voltei
e não sei se aprendi alguma coisa
e vejo
que depois de tanto que já andei
e depois de tantas voltas que já dei
estou de volta ao mesmo lugar
venho sempre parar ao mesmo lugar



inspiração: comportamento de risco recorrente

11022013

09 fevereiro 2013

trinta e nove

Há já muito tempo que as fotografias não são resgatadas de uma ausência poeirenta. A memória tenta construir um rosto através de pedaços das expressões inertes e dos sorrisos impressos no brilho desses papéis. Mas os detalhes, os pormenores das feições, dos sinais, das rugas, esses são como o fumo que se dissolve lentamente até desaparecer. A realidade de todos os dias tem ainda uma voz que se ouve ao longe, distante e casual, como se isso fosse alguma vez possível. Em dias raros, a ausência dá lugar a um coração quente e cheio. A realidade desses dias reveste-se de uma luz efémera que por momentos lhe devolve o alento. Mas a realidade dela é estar sozinha.



inspiração: insónia e um texto antigo

08022013

trinta e oito

a noite vai passando lentamente, com os seus mistérios e os seus cantos escuros, com a sua vida acontecendo lá fora. a manhã irá chegar entretanto, com o primeiro canto dos pássaros e o orvalho pousado nas folhas. e talvez com o meu corpo inquieto e acordado.



inspiração: sem sono

08022013

trinta e sete

e de repente, pés descalços à beira do precipício, olhas para o lado e vês uma pequena estrada, estreita, de terra batida e pedras. tens coragem de a atravessar?



inspiração: as palavras dos outros

06022013

06 fevereiro 2013

trinta e seis

o fim tão perto
aos pés da cama
no fundo do corredor
do lado de lá da porta.
e o melhor caminho será sempre o dos olhos nos olhos
o das mãos dadas
o dos sorrisos que despontam sozinhos
o das lágrimas que não conseguimos evitar.



inspiração: Now is good

05022013

04 fevereiro 2013

trinta e cinco

10 minutos: uma folha em branco, as mãos paradas, os olhos vazios.
7 minutos: o relógio marca as horas e só ele se apercebe de que o tempo não espera por ninguém.
5 minutos: ainda nada. os olhos ainda vazios, as mãos ainda paradas.
4 minutos:
3 minutos: desiste.



inspiração: sem inspiração

04022013

03 fevereiro 2013

trinta e quatro

Sinto o vento bater-me na cara enquanto desço a estrada de pedra. Olho em volta. Sou o único passo apressado.

Sinto o frio invadir-me as mãos enquanto desço a calçada. Passo por prédios de onde saem reis sedentos de mundo e vultos de homens enormes que comem estrelas. Sou o único passo atento.

Sinto a noite cair nos meus olhos enquanto subo a estrada de alcatrão. Passo por uma janela de onde sai o som de um piano. Paro por momentos e sigo. Sou o único passo hesitante.

Vejo o céu ainda amarelo e laranja ao fundo da rua. Chego a casa. Sou o único passo. E paro.



inspiração: domingo em Lisboa

03022013